Negro não é xingamento! | Sobre o orgulho de ser o que sou

1.7.15


Oi gente, tudo bem?

Como disse no post de apresentação, um dos motivos para criar o blog, além de apoiar o canal do Youtube era me expressar, e colocar em palavras algumas das ideias que giram nessa cabecinha aqui.

Pois bem, como alguns de vocês sabem saí do processo de transição há pouco mais de um mês, quando finalmente fiz o Big Chop e retirei toda a química do cabelo e deixei meus cachos crescerem do jeito que bem entendem.

Esses dias eu estava pensando com meus botões, e remexendo nas lembranças, desde a época em que comecei a alisar o cabelo, em todas as coisas que passei e fiz pra lutar pra que ele ficasse liso (me frustrando muitas vezes por sinal), e tentando descobrir em mim mesma o que me levava a querer tanto um cabelo que não tinha.

Uma lembrança que ficou muito na minha mente, eram os apelidos que recebi durante toda a infância por ter cabelo crespo. Lembro que sembre tive muito cabelo, mas minha mãe, que me penteava naquela época não tinha muita intimidade com os cuidados pra cachos (já que alisava o dela, e na juventude usava peruca, sim, é sério!) e penteava meu cabelo seco pra amarrar num rabo de cavalo que acabava virando um enorme pompom!
Me lembro que odiava que meu cabelo ficasse preso, me incomodava muito, sentia repuxar as minhas têmporas, e assim que chegava no pátio da escola, dava um jeito de soltar, e aí que começava a saga.
Desde a alfabetização, até o ginásio recebi todos os apelidos que você possa imaginar relacionado a cabelo: leãozinho, jubão, pavão solto, bombril, e muitos outros, sem mencionar assolan, que tinha jingle na propaganda, como aquela musiquinha me perturbava.

Comecei com os relaxamentos ainda muito nova, por volta dos 9 ou 10 anos, lá por volta dos 12 e depois, aos 15 de novo, houve os que deram errado e acabaram com a saúde dos meus fios, me obrigando a cortar acima do ombro (o que eu odiava!)

Agora, uma coisa que hoje ainda me impressiona, e que quando eu estava na 8ª série (hoje seria o 9° ano) tinha um garoto na minha escola que me infernizava muito, mas muito mesmo! E me lembro perfeitamente, que um dia na hora do recreio, lá estava ele me azucrinando com todos os apelidos já conhecidos quando do nada disparou: "Sua preta! Você é uma preta!" e cuspiu com cara de nojo na direção dos meus pés...
Aquilo foi no meio do pátio, na frente de metade da escola, e sabe o pior? Ninguém parecia ligar!
Me lembro de ficar muito abalada, e correr aos prantos pra sala da diretora, que notou aquele absurdo, provavelmente por também ser negra, e aplicou uma advertência no meu querido colega dizendo que não ia tolerar comportamento como aquele novamente.

Me lembro das palavras dela: "Você acha que preto é ofensa? Você acha que tem alguma coisa de errado com a cor da minha pele? Porque eu não acho! E se eu fosse você me olharia mais no espelho (o garoto era moreno, até bem moreno, mas tinha ascendência indígena e cabelos lisos)!"

Aquela época na escola era bem difícil pra mim. Em plena adolescência, estava lutando pra tentar me aceitar, mas não tive muito sucesso, assumo. Naquela época, morava no interior do Mato Grosso, e me lembro que quando me mudei da Bahia pra lá, logo notei que quase não tinha pessoas com o mesmo tom de pele que o meu. O padrão se repetia na escola, meninas de pele clarinha, o bronzeado vinha só do sol escaldante da região, e muitos pares de olhos verdes ou azuis desfilavam pela escola.
Eu me sentia deslocada, fora do padrão, e entendia que ninguém jamais gostaria de mim, porque? Porque eu era 'nega do cabelo duro'.

Muitos foram os anos, mesmo depois do fim da adolescência, em que me olhava no espelho e não via beleza alguma, não conseguia enxergar e não conseguia me aceitar. Queria ter sobrancelhas definidas, olhos claros, pele branca, o nariz fino e o cabelo liso!

Quantas meninas aí fora se sentem da mesma forma que eu me sentia? Quantas meninas já foram chamadas de "preta" de modo ofensivo, e realmente acreditaram que ser negro é algo ruim? Quantas meninas assistiram a milhares de comerciais de shampoo e tinta de cabelo com aqueles cabelos esvoaçantes sem nenhum fio fora do lugar e se perguntaram: Por que eu não nasci com o cabelo assim? Quantas meninas foram ensinadas pelo senso comum e pela mídia, que preto é feio, é sujo, branco que é belo?!

O meu processo de aceitação foi tem sido longo e demorado, não ainda não acabou, provavelmente vai levar a vida toda! Mas hoje não sou mais aquela menina acuada que se envergonhava de como nasceu. Hoje consigo me olhar no espelho, e ver EU TENHO VALOR, EU SOU BONITA!
Sou grata a Deus, por ter me ajudado a reconhecer toda a beleza que Ele moldou em mim, e por ter colocado na minha vida um marido amoroso pra me ajudar e me lembrar todos os dias que eu não preciso de nada além do que já sou pra ser LINDA!

Agora, você que está lendo esse texto, se chegou até o final é porque se identificou com alguma parte da minha história.
Não seja a menina que sai chorando ao ser chamada de preta! Hoje, se me dissessem a mesma coisa agiria diferente! Eu iria erguer o queixo e dizer: E DAÍ? SOU PRETA SIM! E ME ORGULHO DISSO! EU ME ENXERGO, COMO EU REALMENTE SOU! e claro que processaria o indivíduo, porque racismo é crime.

Ei você, se você quer alisar seu cabelo, alise! Mas alise porque VOCÊ quer! Não porque todo mundo diz que só o liso é bonito!
Ei você, que tem essa cor de chocolate... É você mesma! Chocolate é uma delícia, lembre-se disso, você não tem essa cor por acaso!

VOCÊ É LINDA!

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