Droga! Me apoixonei de novo... | Laiara Dias

8.2.16


Eu estava mais uma vez com os amigos da igreja na lanchonete de sempre. Era o único lugar que tínhamos pra nos reunir, então íamos pra lá quase todos os dias. Eu estava sentada em uma mesa com mais um monte de gente, o pessoal estava conversando sobre todos os assuntos ao mesmo tempo, todo mundo falando alto e rindo. Eu preferia falar pouco. Fiquei fora daquele círculo de amigos durante muito tempo pra me sentir completamente confortável novamente, tinha medo de que voltassem a me odiar secretamente...
Ele tinha sentado na roda de novo, interagia com todo mundo. Achava curioso e fascinante como todo mundo parecia gostar dele. Nunca fui dessas, nunca fui das populares... Mas ele sim, e ele me intrigava.
O visor do meu celular acendeu, era uma mensagem dele. Quer aprender a andar de skate?
Respondi na mesma hora. Quero
Ele leu disfarçadamente a minha resposta, mas não esboçou reação nenhuma. Continuamos sentados, cada um no seu lugar, como se nada estivesse acontecendo. Sim, estávamos a menos de um metro e meio de distância, e estávamos trocando mensagens. De alguma forma, era como se por mensagem o nosso mundo fosse particular, sem precisar dos olhos curiosos do pessoal, nem das especulações e boatos que com certeza viriam. Não tinha porque incentivar nenhum deles. Ele já tinha dito com todas as letras que não queria namorar ninguém, muito menos eu. E eu, bem, eu não tinha certeza de nada pra falar a verdade. Tinha me machucado muito, só sabia que não queria me machucar de novo.
O visor acendeu de novo: E aí? Bora? Olhei pra ele, confirmei com a cabeça. Ele levantou e foi andando em direção a rua vazia, esperei cinco segundos e fui atrás dele.
Nos afastamos um pouco da lanchonete, fomos em direção à parte mais deserta da rua. Ele puxou o long, parou e disse pra eu subir... Perguntou se eu era canhota ou destra. Respondi. Me disse qual pé devia ir na frente, pediu pra segurar minha mão e foi me empurrando enquanto dizia pra eu me equilibrar em cima do long.
Era difícil me equilibrar, sempre fui medrosa, e parecia impossível me concentrar enquanto a mão dele tocava a minha. Parecia que cada nervo meu tinha se movido para os meus dedos e a única coisa que conseguia sentir era a mão dele na minha.


Demos algumas voltas assim, até que ele pediu pra parar. Já estávamos bem longe do resto do pessoal. Ele virou o long na direção contrária.
- Sobe de novo.
Subi
- Vai mais pra frente, coloca o pé bem na ponta, em cima da roda. Pra eu subir também
Fiz exatamente o que ele disse enquanto dizia: - Você vai subir junto comigo? Isso não vai dar certo!
- Relaxa, vai sim.
Ele respondeu.
Subiu no long e segurou mina cintura com as duas mãos. Nesse momento minha mente pareceu explodir. "Ai meu Deus, como vou conseguir me equilibrar agora?!" Pensei. O toque das mãos dele na parte de trás da minha cintura provocou sensações absurdas. Por que meu estômago parecia vazio de repente? E por que meu coração parecia querer rasgar minhas costelas? Sentia um frio na barriga e ao mesmo tempo parecia que estava debaixo de sol quente de tanto calor, apesar de ser uma noite razoavelmente fria de agosto.
Ele começou a remar, e pra manter o equilíbrio pressionava minha cintura.
Droga, droga, droga! Não dava pra me concentrar em nada além do toque dele. O esforço de empurrar o peso de duas pessoas faziam ele respirar mais forte. O som de cada respiração atrapalhava ainda mais a minha capacidade de raciocinar.
De alguma forma eu conseguia rir e responder o que ele perguntava atrás de mim, mas não estava prestando atenção em nada. Só estava sentindo. Sentindo as mãos dele parecer que estavam queimando minhas costas por cima do tecido da blusa. Sentindo o quanto ele estava perto de mim naquele exato momento.
E então acabou.
Ele desceu do long, eu desci também.
Ele o pegou do chão, e começamos a caminhar de volta pra lanchonete. Ele disse alguma piadinha, eu ri, mas não estava prestando atenção.
Sentamos de volta junto com o resto do pessoal, recebemos alguns olhares desconfiados mas ninguém disse nada.
O irmão dele olhou diretamente pra mim, depois pra ele. Eles trocaram alguma coisa pelo olhar, no tipo de linguagem que somente irmãos muito próximos entendem.
Eu só observava. Fiquei encarando aquele garoto curioso por longos instantes. Não conseguia decifrá-lo, não conseguia entendê-lo de nenhuma forma.
Ele pegou o long de volta e foi andar sozinho. Não conseguia parar de olhar, mas me obriguei a ficar com a cabeça voltada pra frente. O lugar onde ele tinha se apoiado nas minhas costas continuava quente, como se alguém tivesse pressionado uma compressa no lugar.
Fiquei viajando nos meus próprios devaneios por não sei quanto tempo, alheia a todas as conversas e risadas ao meu redor.
Olhei pra trás uma vez mais, na direção de onde vinha o som das rodas no asfalto. Ele estava no meio de uma manobra. Desceu do long por um breve momento, e em um milésimo de segundo nossos olhares se cruzaram. Naquele instante pensei: Droga! Me apaixonei de novo...

  • Share:

You Might Also Like

0 comentários

Sua opinião é muito importante!
Deixe aqui que eu vou amar saber!