A Garota Dinamarquesa e o preconceito disfarçado de religião

23.3.16


Em primeiro lugar, isso não é uma crítica de cinema, não é também uma resenha literária: é uma reflexão sobre nossos conceitos.
Há alguns dias fui a um evento de lançamento da Editora Rocco, onde foram apresentados vários livros que seriam lançados e republicados ao longo de 2016. Pois bem, um dos títulos era "A Garota Dinamarquesa", que recentemente foi adaptado para o cinema. Na ocasião do evento, o título levantou uma importante discussão e reflexão sobre preconceito, e desde então não consegui tirar as questões levantadas naquele dia, e outras que surgiram em mim, da mente.
Precisava falar sobre isso!
Eu já sabia, pois tinha visto em portais de notícias, que alguns lugares tinham vetado a exibição do filme, mas sinceramente, fiquei chocada ao saber, por meio de uma das participantes do evento da Rocco, que vários cinemas brasileiros se recusaram a exibir o longa metragem. Tão chocante quanto isso, foi saber que em algumas das poucas salas que exibiam o filme, haviam pessoas que assistiam o mesmo fazendo chacota da história, rindo diante da tela.
Frente a isso não é de se espantar que haja pessoas, aqui perto de mim, que considerem o filme uma depravação, ou que condenem o enredo, pelo simples fato de se tratar da história de uma transgênero.
Agora, sabe o que mais me entristece? Saber que essas pessoas batem no peito se dizendo cristãs.
Como muitos de vocês sabem, sou evangélica, e fico revoltada ao ver seres humanos (se é que se pode chamá-los assim) usando a religião ou a denominação pra justificar seus preconceitos.
Eu gostaria muito de encontrar um desses indivíduos frente a frente, e perguntar onde, em que lugar da Bíblia ele encontra respaldo para odiar pessoas diferentes de si mesmo, por qualquer motivo? Onde a Bíblia nos diz pra ignorar o sofrimento alheio? Se alguém encontrar, me avise, pois até hoje não encontrei.
Eu assisti o filme quase o tempo todo com um nó na garganta. E não, não foi por se tratar de uma trans, foi pelo sofrimento. O filme mostra o terror psicológico pelo qual Einar/Lili e Gerta passaram, todas as mudanças, todas as inseguranças, todas as dúvidas! Eu não consigo conceber como um ser humano senta pra assistir aquilo e não se compadece! É inaceitável! Estamos falando de pessoas, gente com família, com medos, com sentimentos! É sério que há quem ache que a opção sexual, ou a identidade de gênero nos torna tão diferentes? Desculpe, não vejo como.
Ao fim disso, fico abismada como as pessoas são capazes de usar a religião como desculpa pra tudo. Eu nasci e fui criada no cristianismo, e garanto a qualquer um que o preconceito não é um dos ensinamentos da minha religião. Estou farta de pessoas batendo no peito, se achando santarrões melhores que os outros só porque sentam num banco de igreja durante duas horas por semana. Estou farta de pessoas usando a palavra de Deus para transformá-la em discurso de ódio. Estou farta de pessoas usando o cristianismo como escudo para suas própria falhas nefastas. Estou farta de templos cheios de pessoas mais preocupadas com aparência e dinheiro do que com amar o próximo como a si mesmo.

É um desabafo necessário pra mim agora, pra você que está lendo isso.
E o que eu deixo aqui é: se você ainda não viu esse filme, assista. E se ao assistir, você não conseguir sentir compaixão pelos personagens (que sim, foram pessoas reais na década de 30), é melhor você rever seus conceitos.

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