Completa idiota, mesmo! - parte 1

21.3.16


Meu celular vibrou e piscou a tela… Mensagem de número desconhecido. Continuei falando com a minha mãe, ou melhor, ouvindo o que ela falava enquanto pegava o celular pra checar o torpedo. Minha mãe é daquelas que não dá pra ignorar, e mesmo fazendo outra coisa você precisa interagir com ela, principalmente se estiver no papel de filha única. É melhor não contrariar, faz pouco tempo que voltamos a ter uma boa relação e não queria voltar aos maus tempos de novo.

Chequei o número na tela, realmente não conhecia o número. Senti um leve pânico ao pensar que podia ser o ex novamente me xingando virtualmente depois do término, e então lembrei que ele estava fora do estado, e o número era local. O pânico passou. Abri a mensagem pra ler de uma vez.

- Boa noite! Tenha uma semana abençoada! - dizia o texto.
Engraçado, parecia uma daquelas mensagens coletivas que se manda pra toda a sua agenda, sabe? O curioso é que nem essas mensagens eu recebia. Acho que fui chata a tal ponto, e depois me afastei tanto das pessoas ao meu redor, que elas simplesmente desistiram de mim, até mesmo no mundo dos torpedos. Não posso culpá-las, mas era doloroso admitir isso, então melhor nem pensar no assunto.
Minha mãe parou de falar, e eu comentei:
- Olha mãe - eu disse - recebi uma mensagem de boa noite! - É eu sei, é patético, mas depois do que tinha passado meses antes, qualquer distração era bem vinda.
- De quem é? - minha mãe perguntou.
- Não sei, não conheço o número.
- Hum
- Vou responder e perguntar quem é, não aguento de curiosidade - disse rindo.
Digitei rapidamente - Pra você também! :) Quem é? - e fiquei com o aparelho na mão esperando a resposta, que veio após alguns segundos. A tela piscou de novo com uma mensagem que tinha apenas um nome escrito. Em seguida veio outra dizendo: - Sabe quem é?
- Sei. O irmão do baixista - digitei e enviei.
Irmão do baixista era a forma educada de dizer, o mais correto seria “Sei, o cara que me olhou o retiro todo com se eu fosse a assassina a sangue frio da sua família”. É, era aquele cara que estava me mandando mensagem sabe Deus por que… O baixista era um cara legal, um pouco irritante às vezes, mas eu não tinha nada contra. Ele tinha até sido bem simpático comigo. Ao contrário do irmão, que parecia ter um saldo enorme de ódio gratuito direcionado a mim.


Comentei com minha mãe quem era, e ela fez uma cara indecifrável. Emitiu um som de concordância e voltou a assistir o Fantástico. O celular acendeu novamente, dessa vez com uma concordância e uma pergunta de elevador. Continuei sem entender a razão daquele garoto estar falando comigo por mensagem, mesmo assim salvei o número na agenda e continuei digitando e respondendo.



Algumas mensagens depois ele disse: - Até que você não é o monstro todo que eu pensava - não sabia se isso era uma ofensa, ou um elogio, resolvi deixar por menos e continuei a conversa em tom de brincadeira. A um certo ponto ele disse boa noite de novo e avisou que ia dormir. Respondi um “ok” e disse que também precisava dormir pra acordar cedo, desliguei a tela e continuei conversando com a minha mãe, até que ela cochilou e tive que mandar ela ir pra cama logo.



Dormi um sono leve, sem pesadelos, naquela noite.
Acordei cedo com o vibrar do celular. Vestígios da tensão constante que ainda me acompanhava, acordava ao menor sinal de perturbação.



Era o garoto de novo, uma mensagem de bom dia… Parecia coletiva de novo. Não sei porque mas senti a necessidade de responder. Digitei uma frase rápida, ainda meio grogue de sono e quando penso que não, chega outra mensagem: - Dormiu bem?


Oxi! Pensei… Mas respondi mesmo assim. Me obriguei a levantar, apesar de ainda ser muito cedo pra mim. Me arrumei pro trabalho e continuei a conversar com ele por torpedo. A manhã passou de um jeito mais rápido. Fazia tempo que eu não tinha uma manhã assim, sem preocupações, tensões ou choros repentinos. Não fazia ideia se eram mesmo aquelas mensagens de amenidades com o tal garoto que faziam isso, mas pelo menos me distraíam.


Os dias passaram assim, acordava com uma mensagem de bom dia, e passava toda a manhã e a tarde trocando mensagens. Enredava pela noite e por aí continuava. Conversávamos de tudo um pouco, sem falar de nada específico.
Na quarta-feira mostrei as mensagens para minha mãe, que me olhou com uma cara conspiratória e perguntou logo:


- Você acha que ele tá interessado em você?

- Duvido! - respondi como se fosse a coisa mais absurda do mundo
- Hum, sei não hein!
- Nada a ver mãe… esse menino nem me conhece, e além do mais, não quero outro namoro tão cedo. 

Não depois do desastre que foi o último.
A expressão dela mudou quando mencionei o relacionamento ainda fresco. Sei que foi tão doloroso pra ela quanto pra mim. Por isso mudei logo de assunto, falei algo que tinha visto na TV mais cedo e mamãe logo engatou na conversa. A vantagem (e a desvantagem) de ter uma mãe baiana: ela sempre vai tagarelar, é só puxar o assunto certo.


Fiquei pensando naquele olhar de quem sabe mais do que está falando que minha mãe me deu ao ler as 122 mensagens que mostrei pra ela. Fiquei dizendo mentalmente pra mim que não tinha sentido nenhum achar que aquele garoto queria algo comigo. Mas se não queria, então qual o por que das mensagens? Ok, teve aquela conversa de canto em que disseram que ele era um ótimo partido pra mim, mas era só piada de retiro, certo? E não tinha como ele ter ouvido. No fundo queria que minha mãe estivesse certa.
Por mais insensato que parecesse.

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2 comentários

  1. Ei Laiara! Adorei esse texto e estou doida para ler as próximas partes. Gosto de ler esses relatos e me sentir conectada em diferentes situações, assim como nos livros.

    Beijo,
    Aline Polito
    Memórias Literárias

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    Respostas
    1. Ai que bom que gostou Aline! rsrs sinto um orgulho particular quando alguém se conecta...
      A parte 2 tá pronta, só não postei junto porque ficaria muito longo...
      já já eu publico :)

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