Completa idiota, mesmo! - parte 2

29.3.16


A quinta-feira chegou como os outros dias daquela semana, mais mensagens, claro. E eu desfrutando da tranquilidade daqueles dias. A noite chegou e fui para o culto. Ele estava lá, mas o cumprimento não passou de um aceno de cabeça.

Acabou o culto, minha mãe foi logo pra casa e eu disse que ficaria mais um pouco, no fundo só queria enrolar pra ver se ele viria falar comigo pessoalmente, seria a tira-teima. Ele ficou falando com todo mundo de um modo geral, fiquei meio afastada observando, esperando… Ele parecia o tipo popular, todo mundo parecia gostar dele. Eu era o extremo oposto.

Então os meninos começaram a agitar todo mundo pra ir para a lanchonete que ficava dois quarteirões a frente. Ainda não me sentia a vontade pra interagir com o pessoal, não estava confortável ainda. Nada tirava da minha mente que estariam todos me julgando mentalmente pelos meus erros nos meses que passei fora. Enquanto todo mundo se juntava e descia o caminho até a lanchonete, discretamente fui na direção contrária, rumo a minha casa.

Ninguém notou - pensei comigo mesma.
Vinte metros depois meu celular apitou:

- Não vai lanchar?

- Não - respondi

- Pq?

- Tô cansada, e tenho muito trabalho da faculdade pra fazer - não era bem uma mentira. Com a confusão dos últimos meses meu TCC ficou bem atrasado, mas o mais provável era que eu chegasse em casa e fosse comer e dormir direto. Eu tinha ficado um pouco mais, achando que ele viria pelo menos dar um “oi”, como não foi o caso, melhor ir dormir mesmo.

A meio caminho de casa ouço a moto atrás de mim. Era ele - de quem era aquela moto? - pensei. Não importava. Ele foi me seguindo lentamente, sem dizer uma palavra sequer. Só ficava me olhando com aqueles olhos verdes que eu não conseguia decifrar - o que será que ele estava pensando?


Chegamos no portão de casa. A rua estava deserta. Esperei, achando que ele ia começar a conversa. Esperei mais, e como ele nem descia da moto nem resolvia falar nada comecei:

- Então…

- O que você falou sobre mim e do meu irmão naquela conversa no retiro? - me interrompeu em um tom ríspido, antes mesmo que eu pudesse raciocinar.
- Eu não disse nada! - respondi na defensiva. Tava claro que eu tinha me enganado a respeito dele. Ai como fui idiota!

- Não foi o que eu fiquei sabendo! - continuou ele, no mesmo tom.

-Olha - minha voz saiu mais insegura do que eu esperava - os líderes estavam falando que você é um bom partido, e disseram que formaríamos um belo casal, mas eu não disse nada! Só estava ouvindo.

- E o meu irmão? O que disseram dele?

- Não sei de nada do seu irmão! - disse adotando uma postura ainda mais defensiva. Não gostava da forma acusadora que ele estava falando.

Se fez um silêncio que deve ter durado uns três segundos no máximo, mas posso garantir que pareceram bem mais. Quando eu já estava acreditando que ele tinha terminado ele disparou o segundo round:
- Pois toda vez é a mesma coisa! - e agora parecia realmente bravo - É só chegar uma menina nova na igreja que tentam empurrar pra mim ou para o meu irmão!
- Eu não sou nova! Só passei um tempo longe. - rebati na falta de uma defesa melhor.

- Eu já disse pra todo mundo. Não estou na igreja por causa de mulher. - continuou como se nem tivesse escutado o que eu disse - E além do mais, eu não estou afim de namorar ninguém, muito menos namorar com você! - ui! essa doeu! - Pra começo de conversa, essa história de tentar juntar casal não dá certo, é forçado e isso só pode acabar mal. E se isso não for o suficiente, você é chata, mandona, autoritária, metida, mal educada, trata mal as pessoas e é muito soberba... Você é insuportável! Sem chance de eu querer me envolver com alguém assim.

Acho que demorei alguns segundos pra confirmar se eu tinha ouvido direito? Quando meu cérebro processou tudo que ele tinha dito tive que juntar toda minha força de vontade pra não chorar. Não ia dar esse gostinho a ele, ahhh, mas não mesmo! Como pude ser tão ingênua a ponto de achar que esse cara estava se interessando por mim? Era tudo um jogo, pra ganhar minha confiança e depois cuspir tudo o que ele achava em cima de mim…
E eu não tinha nada pra revidar, não conseguia pensar em nada.
Na verdade os últimos meses me deixaram farta de brigas e discussões. Eu estava cansada. E a essa altura eu só queria cavar um buraco no chão e sumir. Ou na falta dessa opção, só queria entrar em casa e me afundar na cama.
- Olha eu nunca disse que queria alguma coisa com você - respondi a única coisa que me veio a mente - Eu acabei de sair de um relacionamento muito, mas muito complicado mesmo. Que me deixou bem machucada na verdade. E-e-eu - droga, garota, péssima hora pra tropeçar nas palavras! - não tenho certeza se quero embarcar em outra tão cedo.

- Hum. Então é isso?

- É. - levantei o queixo, era o último resquício de dignidade que eu tinha, se é que sobrou alguma - Olha, acho que tá na hora de entrar, como eu disse, eu tenho trabalho da faculdade pra fazer.

- Ok.

E antes que eu chegasse ao portão ele já tinha dado partida na moto.

Entrei em casa com a maior cara de bunda possível, agora que ele tinha ido embora não tinha porque disfarçar.
Minha mãe estava na cozinha preparando um lanche e perguntou se eu queria. Tinha perdido toda a fome, mas sabia que se não aceitasse ela ficaria preocupada com minha falta de apetite e notaria que tinha algo errado.
- Você estava no portão com aquele menino? - perguntou mamãe enquanto preparava o meu sanduíche.

- Tava. - respondi com a voz fraca de quem segura choro

- Hum, e aí?

- Digamos que ele não foi muito simpático comigo, quis saber o que estavam falando dele e do irmão no retiro, e parecia meio bravo.

- Ah, isso passa, filha - respondeu com aquela cara de quem sabe mais do que tá dizendo novamente.

Sentei pra esperar meu lanche ficar pronto e fiquei mexendo no celular pra manter as mãos ocupadas.

O aparelho vibrou de repente. Uma mensagem dele.

- Desculpa pela forma que falei com você. Não precisava ter dito daquela maneira. Mas tudo que disse era verdade.

Fique um tempo sem saber se respondia ou não. Digitei um “ok” e apertei “enviar’. Devia ser o suficiente, já que pelo que eu entendi, ele não tinha mais nada a conversar comigo. O plano acabou, ele disse tudo, bola pra frente. Nada mais de mensagens durante o dia.

Mamãe acabou de preparar meu sanduíche, fui comer na sala enquanto víamos televisão, e eu fingia que as palavras dele não estavam entaladas na minha garganta.

Será que eu era assim tão intragável?
Não importava mais. Eu podia muito bem continuar na minha bolha de proteção. Relações humanas eram perigosas, machucavam muito.
Tentei guardar tudo aquilo em algum canto esquecido do meu cérebro e dormir. Pedi a bênção à minha mãe e fui deitar.
Às 5:25 da manhã de sexta acordei com o vibracall do celular.

- Bom dia, linda :) - dizia a mensagem dele.

Não pude evitar o sorriso que apareceu no meu rosto. Mais rápido do que eu gostaria de assumir eu digitei a resposta.
Eu só podia ser uma completa idiota mesmo!

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2 comentários

  1. Quero a terceira parte. Agora.

    Obrigada. De nada. hahaha

    Beijo
    Aline
    Memórias Literárias

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    1. Calma! Virá o mais breve possível hahaha

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