Completa idiota, mesmo! - parte 3

8.4.16


Contra todas as expectativas eu sobrevivi àquela surra de verdades da quinta passada. Mais uma vez, não é que eu não soubesse que algumas pessoas pensassem exatamente aquilo ao meu respeito, mas ouvir assim, na lata, dói! Pode apostar que dói.
Mas a manhã seguinte chegou, e depois dela veio mais uma, e por mais pesadas que as palavras dele tenham sido, elas passaram a ser somente um eco no fundo da minha mente. As mensagens continuaram, e nós falávamos de tudo. Bem, não tudo de verdade, a maior parte das coisas eram sem sentido algum, nada de especial… Mas tinha algo naquela conexão que me dava uma certa segurança. Como se fosse um abrigo seguro, depois de toda a tempestade que a minha vida tinha passado, era bom ter alguém pra conversar de tudo e de nada ao mesmo tempo.
- O pessoal vai descer pra lanchonete, você vem? - foi a mensagem que chegou no início da noite. Eu tinha chegado da faculdade há alumas horas, não tinha nada pra fazer e alguma coisa no fundo da minha cabeça me impelia a ir, quase como se eu precisasse estar lá.
- Que horas? - respondi
- Agora
Falei com minha mãe aonde pretendia ir e pedi permissão - é assim que funciona aqui, mesmo com 21 anos, preciso pedir pra sair de casa. Tudo bem, sempre foi desse jeito, e acredite, quando tentei mudar não foi uma experiência legal.
- Se tiver quem te traga pra casa depois, pode ir. - mamãe respondeu - E vê se não chega muito tarde que amanhã é dia de aula!
- Pode deixar, mãe!
Levantei mais animada do que queria parecer pra trocar de roupa e colocar um puco de dignidade na cara, tirei o pijama e coloquei uma roupa minimamente decente, peguei as chaves e saí.
Percorri a passos rápidos o caminho que separava minha casa do lugar de encontro, mas ao me aproximar da lanchonete senti uma pontada de apreensão. Não tinha certeza do porquê, mas sabia que tinha a ver com aquele garoto. Não necessariamente com a pessoa dele em si, mas mais com o efeito que ele exercia. De alguma forma eu queria estar perto dele, mas estar no meio de todo o pessoal me assustava ainda. Depois do que ele disse, sobre eu ser uma pessoa insuportável, estar rodeada por todo mundo era paralisante. “Será que todos eles pensam a mesma coisa, e só não têm peito pra falar?” era a pergunta que pairava a minha mente o tempo todo. Pra completar, quando estávamos todos juntos ele parecia uma pessoa totalmente diferente daquela com quem eu conversava todos os dias por mensagens: era distante, indiferente até, como se houvessem múltiplas personalidades dele, ou como se todas as conversas fossem fruto de um sonho.
Chegando mais perto pude ouvir a cacofonia de várias conversas animadas ao mesmo tempo, risos, música, tudo junto. Aquele grupo parecia uma banda bem ajustada, e eu… Bem, eu me sentia como a corda desafinada de um instrumento velho.
Cheguei na mesa, dei um oi genérico acompanhado de um aceno e do sorriso mais forçado que qualquer um possa imaginar. Sentei em uma das pontas me perguntando o que diabos eu tinha ido fazer ali.
As horas foram passando e aos poucos eu arriscava participar da conversa com uma frase tímida ou outra. Ele, por sua vez, falava muito, brincava com todo mundo, trocava de lugar o tempo todo, implicava com o irmão que não largava o violão por nada. Não havia duas figuras mais opostas que nós dois naquela roda.
Uma parte do grupo foi embora cedo, nenhum deles ia para a direção da minha casa, e como não estava tarde ainda, resolvi ficar. Fiquei eu, duas das meninas, ele, o irmão e mais dois amigos.
Tudo parecia ir bem…E então um dos colegas do bairro passou de carro e buzinou pra nossa mesa, acenando para os meninos.
- Você não gosta muito dele, né?! - perguntou um dos rapazes, apontando para o carro assim que as luzes traseiras sumiram ao virar a esquina.
- Eu nunca disse que não gosto dele, a gente só não conversa muito - respondi baixinho.
O que veio a seguir parecia ensaiado de tão sincronizado, e seria bem cômico se fosse menos maldoso.
- O que não tem problema, porque ele também não gosta muito de você. - me interrompeu o rei dos torpedos.
- O que não tem problema também, já que ninguém gosta muito de você. - completou o irmão olhando pra mim.
Nesse instante eu senti uma pontada no peito. Estava apenas semi consciente da explosão de risos que se seguiu à ultima fala, pois só consegui sentir meu rosto ficar quente enquanto minha visão ficava embaçada.
Droga!
Se mexe garota, não vai ficar aí parada sem dizer nada, ou vai?
Simplesmente não dava, tinha sido pega de surpresa, e fiquei paralisada enquanto uma lágrima descia pelo lado do meu rosto.
Me senti patética, humilhada e com vontade de sumir.
As risadas pararam.
Um silêncio denso como uma parede blindada desceu sobre a mesa.
- Pegou pesado - disse um dos meninos, aquele que tinha uma moto.
O irmão, o que tinha sido a cereja do bolo, estendeu a mão na minha direção com um olhar de desculpas. Me encolhi pra fugir do toque.
Sequei a primeira lágrima, levantei de súbito do meu lugar e fui o mais rápido que pude para o banheiro.
Tranquei a porta.
Chorei.
Chorei.
Chorei até meu peito doer pedindo por ar.
Adeus dignidade.

Me obriguei a me recompor. Respirei fundo, passei uma água no rosto e dei uma olhada no espelho tentando me convencer que as palavras não tinham doído tanto.
O que eu ia fazer agora? Podia sair direto e ir pra casa, sem nem falar nada com ninguém.
Droga! Bolsa, chaves, celular, tudo ficara na mesa.
OK, vamos lá então.
Sentei à mesa em silêncio, a conversa tinha continuado, indo parar em outros assuntos, mas minha chegada trouxe o ar pesado de novo. Assim que sentei vi a tela do celular piscar com uma mensagem dele.
- Desculpe.
Ah! Depois do estrago feito era fácil! Ia virar rotina agora? Nem me dei ao trabalho de responder. Simplesmente desliguei a tela.
Quando penso que não, um dos garotos se levantou da mesa e veio me dar um abraço de urso, e logo eu estava envolvida em um grande abraço coletivo, enquanto ouvia que não era pra me importar com que qualquer um tivesse dito, porque eles gostavam de mim.
Aquilo me emocionou e claro que não consegui conter a enxurrada que resolveu sair dos meus olhos, mas ainda assim tinha uma voz dizendo no fundo da minha mente que aquilo era fruto só do remorso, já que basicamente nenhum homem sabe lidar com a imagem de uma mulher chorando.
Ponto.
Chega de comoção.
Quando o abraço se dispersou, juntei minhas coisas e fui pagar a conta. Tinha sido um grande erro ir até ali, e um maior ainda ter ficado depois que metade do pessoal fora embora.
Agora tudo que eu queria era minha cama e um bom livro. Queria me imergir em alguma história fictícia em que os problemas dos personagens me envolvesse a ponto de esquecer os meus.
Disse um breve “tchau” para ninguém em especial e fui andando na direção de casa.
Que se dane o não ir sozinha, não ia pedir pra ninguém me acompanhar depois daquela cena.
Não tinha andado nem cem metros quando ouvi os passos dele atrás de mim.
Me alcançou um instante depois e foi andando ao meu lado, sem dizer nada.
Acho que não tinha nada a dizer agora. O cara expansivo e brincalhão deve ter ficado em algum lugar da mesa.
Chegamos ao portão da minha casa sem falar uma palavra sequer. Parei e me virei para me despedir dele, afinal, eu ainda lembrava do “mal educada” da outra noite e não ia dar razão para mais adjetivos.
Mas antes que eu pudesse dizer tchau, ele segurou meu braço. E só esse toque foi o bastante pra que eu esquecesse em que lugar do meu cérebro onde estava armazenada a capacidade de formar uma palavra.
- Desculpa, de verdade. Não queria ter te feito chorar.
- Agora já foi… Esquece - respondi num tom cansado. Era exatamente como eu me sentia. Exausta.
- Sério, me desculpe.
- Tudo bem… Já passou, de verdade… - a cada palavra eu me sentia mais cansada. Que grande droga, eu por um segundo sequer imaginar que esse cara ia me fazer algum bem. Como qualquer outro, ele só acabaria deixando cicatrizes.
E então ele me puxou num abraço.

Cedi.
Fui.
Derreti.
Era macio e acolhedor. Por um momento me permiti acreditar que havia alguma esperança, mesmo sem saber do que.
O vento batia frio no meu rosto, mas o abraço era quente. Senti meus músculos relaxarem, a tensão acumulada começando a se dissolver bem lentamente e escoar devagar pelo afago que ele fazia nas minhas costas como se fosse um último pedido de desculpas sem palavras.
Não sei quanto tempo permanecemos abraçados antes que ele dissesse que precisava ir. Mas pareceu um pedaço de infinito.
Eu queria acreditar que era sincero, que por um instante, aquela centelha que nascia devagar no fundo do meu peito estivesse em sintonia com algo que ele também sentia. Mas a realidade, eu sabia, era diferente: era só mais um cara reconhecendo que fez burrada, que foi longe demais. Não significava nada.
Mesmo assim, quando ele me soltou, e se despediu com um suave beijo na minha bochecha, senti uma corrente elétrica passar pelo lado do meu corpo.
Ao passar pelo portão e trancá-lo pelo lado de dentro parei um instante antes de atravessar o quintal, para sentir por mais um segundo o que restou do abraço dele.
Sem querer soltei um suspiro, e dessa vez não era de pesar.
Repassei então na mente os acontecimentos de apenas trinta minutos antes, e tive certeza: ou eu estava perdendo o juízo de vez, ou merecia o prêmio de maior idiota mesmo!

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