Muito mais que amargo - Um papo sobre relacionamentos abusivos

4.7.16


Acabei de ler o livro Amor Amargo da Jennifer Brown esses dias, a intenção era fazer uma resenha dele, mas vai ter que sair post especial, porque uma simples resenha não seria o bastante.
Jennifer Brown além de escritora é também profissional da área de psicologia, e esse lado dela se transparece na sua narrativa. Já tinha visto recomendações de livros dela pelo booktube, ressaltando o fato de que os seus livros sempre abordam algum assunto tenso. Resolvi dar uma chance, e escolhi Amor Amargo.
Alex é uma menina de 17 anos que não conseguiu superar o abandono e a morte da mãe, tem uma relação familiar conturbada e seus apoios são seus dois melhores amigos: Zach e Bethany. Um belo dia, Alex conhece Cole, o novo cara do colégio, que se mostra interessado por ela, aliás, o primeiro cara que se demonstrou apaixonado por ela em toda sua existência.
Alex fica encantada.
Até que ela se encontra no centro de um relacionamento abusivo.

É disso que Amor Amargo trata. É um YA, que tem algo mais a passar, pois mostra, por trás dos olhos da pessoa que é vítima do abuso, o que é estar num relacionamento assim.
Foi duro de ler. Foi doloroso passar cada página, cada parágrafo. Não porque o livro tenha sido ruim, pelo contrário, porque foi muito bom. Foi bem pensado, e escrito por alguém que estudou muito antes de escrever. Foi um retrato realista da prisão que é uma relação assim.
E pra quem já esteve no lugar da Alex, é um soco no estômago reviver cada sentimento.

Por isso quis vir aqui, fazer algo além da resenha. Sim, já estive em um relacionamento abusivo. E é mais fácil de entrar em um do que você imagina. E é muito mais difícil de sair dele do que você jamais possa sonhar.

Quando ouvimos relatos de histórias assim, a primeira coisa que nos vem à mente é algo do tipo “Eu nunca me colocaria em uma situação assim”, ou “eu jamais me sujeitaria a isso” ou então “eu pularia fora no primeiro sinal”. Eu já pensei assim. Mas a realidade é bem diferente.

À primeira vista, o relacionamento parece perfeito. Abusadores são carismáticos, são populares, são manipuladores. É assim que caímos nesse tipo de cilada. Pessoas abusivas manipulam o parceiro de uma tal forma, que passamos a acreditar que a culpa é nossa, que merecemos o abuso, que não valemos nada, e que por isso devíamos agradecer por pelo menos alguém, por pior que seja, querer estar ao nosso lado.
Abusadores anulam nossa identidade, lentamente nos afastam dos nossos amigos e familiares, nos levando a crer que a única pessoa com quem podemos contar são eles.
Quando nos damos conta do tamanho da encrenca, a manipulação dá lugar ao medo. Chega o dia que você não sai, não porque não esteja ciente da situação, mas porque tem medo das consequências. Você começa a temer pela sua integridade física, a temer pela própria vida.
Você então passa a viver na base da tensão, da apreensão. Você passa a pisar em ovos, porque sua relação vira um campo minado, e a cada bomba que explode você perde um pedaço de si mesma. E o mais triste, é que alguns deles não dá pra recuperar.

E então vem a vergonha. Vergonha por ter sido ingênua o suficiente pra se colocar em uma situação assim. E a sociedade não ajuda. Muitas foram as vezes que quis dar fim em tudo, mas quando pensava que teria que ouvir infinitas vezes um “Também, foi caçar problema, achou! Quem mandou?!”, e então eu desistia.
E a vida se tornava uma constante desistência.
Eu desisti de lutar, desisti das amizades, desisti de contradizer, desisti de tentar me defender (era mais fácil ceder e até mentir para ver se o tormento passava pelo menos um pouco).
E chegou um ponto que eu desisti de mim mesma.

Mas chegou o dia do estalo. Do chega!
Não foi fácil, e creio que só foi possível porque Deus agiu em meu favor (se você não acredita, tudo bem, mas eu sei o que vivi, e sei que por mim mesma era impossível sair, e minha fé é algo muito importante pra mim).
Eu já tinha perdido muito peso, já quase tinha perdido o emprego, já tinha crises de pânico constantes, já não tinha contato com os meus amigos e mal falava com minha mãe.
Mas um dia, por telefone, decidi que seria o fim. E só foi o fim real por dois fatores: o apoio incondicional da minha mãe, e o fato do meu esposo aparecer na minha vida naquele exato momento.

O que dói é saber que algumas cicatrizes são tão profundas que ficarão ali pra sempre. O medo é a maior delas. Mesmo tendo um esposo maravilhoso, em alguns momentos me pego ficando com os músculos tensos ao encontrar um ex-colega de faculdade. Então eu lembro que agora é diferente, e então meu coração pode voltar a bater tranquilamente.
Eu sempre vou ter que conviver com essa tensão, com o nó na garganta. Esse relato é uma parte ínfima do que vivi. Há coisas que passei que nunca disse a ninguém, e duvido que algum dia diga. Mas ter saído, ter escapado, é a maior prova pra mim de que há esperança.
Se você está nessa situação e está lendo esse meu breve relato, procure ajuda! Agora, o quanto antes! Ninguém merece ficar assim!
Eu sei que é difícil, que o medo é paralisante, e que o silêncio parece ser a única saída, mas todas merecemos algo muito melhor.
Por favor, não se cale. E por pior que sejam as feridas, a vida vai continuar. Você só precisa se libertar.

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2 comentários

  1. Post maravilhoso!

    Nada melhor do ter relatos verdadeiros de quem já passou por algo, para inspirar, ajudar e amparar quem passar por isso.
    Vamos compartilhar o post e rezar que ele ajude as mulheres desse Brasil!
    Parabéns pela coragem em compartilhar Lai, e pela força para sair e seguir em frente! :)

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    1. Brigada Yara! Principalmente por me apoiar desde que tive a ideia... <3

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