Um campo minado

30.9.16



Era domingo. O dia tinha passado de forma preguiçosa. O culto já tinha acabado há um tempo mas eu continuava na frente da igreja conversando com as poucas pessoas que restavam por lá.
Tinha passado o dia inteiro numa expectativa incomum, como se algo fosse acontecer, e aconteceu! Assim que saí de casa fui pega pela chuva mais torrencial e repentina dos últimos tempos. Quase dei meia volta pra ir direto pra cama, mas algo me fez continuar andando em frente.
Ele também parecia distraído hoje, enquanto nós dois mantínhamos uma distância calculada um do outro.
A quem olhasse eu parecia estar fazendo um esforço para me socializar depois de passar tantos meses afastada. Mas eu sabia que só estava ali conversando amenidades na esperança que ele mais uma vez se oferecesse para me levar em casa, e então eu pudesse ter a oportunidade de conversar com ele sem que ninguém ficasse observando e especulando coisas. Até porque, idiota e iludida como sou, obviamente essa situação já estava claramente platônica. Afinal, ele já deixara claro mais de uma vez. "Não quero nada com você" ele dissera.
O frio da noite ia aumentando e a minha paciência diminuindo. Já estava a ponto de sair andando sozinha mesmo, mas minha teimosia e meus pés doloridos de tanto tempo em cima de um salto agulha de mais de dez centímetros não deixaram.
- Como você vai embora, Laiara? - perguntou um dos garotos
- Do mesmo jeito que vim: andando...
- Mas sua rua tem muita lama!
- Eu vim pelo asfalto - respondi
- Que disposição!
- Pois é - dei um olhar significativo para o "Senhor Sinceridade" pra ver se ele se tocava, mas acho que não surtiu muito efeito.
Logo depois o assunto mudou e eu fiquei mais na minha, até que alguém falou de chocolate.
- Nossa como eu amo chocolate! Faz séculos que não como... - comentei
- Gosta mesmo? Tenho uma barra de Diamante Negro no carro, você quer? - Disse um terceiro garoto que eu tinha visto poucas vezes.
Aquilo foi uma cantada? Eu nem sabia o nome desse indivíduo! André? Diego? Sei lá. Revirei os olhos e dispensei com um obrigada, mas por dentro queria dizer "Hellooooo, me devolve a confiança que eu não te dei!"
Nessa hora notei que o indivíduo estava sendo meio que fulminado por um par de olhos. Espera, era uma pontada de ciúme que eu estava vendo naquele olhar? Não! Não era possível! Mas eu podia jurar que sim...
Passaram-se mais alguns minutos até que se movimentaram pra ir embora. Murchei por dentro ao me dar conta que tinha ficado ali até então pra nada... Poderia ter ido embora há tempos, já que pelo visto iria sozinha mesmo.
Um dos meninos perguntou se o do carro não passaria próximo à minha casa, indicando onde eu morava. Não sabia se ficava agradecida por não precisar andar, ou apavorada por aceitar carona de quem tinha aparentemente acabado de me cantar.
Agradeci baixinho e relutei pra entrar no carro.
- Ei, você pode me dar um bonde também? - mal acreditei ao ouvir a voz dele, e quando o dono do carro disse que sem problemas, me senti um pouquinho mais aliviada.
Chegando na frente de casa agradeci a carona enquanto descia do carro.
- Valeu pelo bonde, eu fico aqui também.
Espera aí? Como assim ele ia ficar aqui também? Achei que tinha pedido carona pra casa dele, e digamos que ficava um tanto quanto longe da minha.
Fui pega de surpresa, mas havia uma alegria secreta crescendo por dentro. Eu não pedi, mas parece que ele entendeu o recado.
Quando ficamos sozinhos ele se encostou no muro com um olhar indecifrável. Eu realmente era incapaz de entender o que se passava na cabeça daquele garoto. Uma hora eu tinha certeza que ele me odiava e em outra parecia que toda a ilusão platônica que eu alimentava por ele tinha algum sentido e talvez fosse recíproca. O que por si só já era um absurdo e uma burrice tremenda. A última coisa que eu deveria pensar depois de sair de um relacionamento abusivo era embarcar em qualquer outro relacionamento. Mas lá estava eu, fazendo a trouxa apaixonadinha de novo. Sério coração, você se esforça pra me ferrar né!
Fiquei de frente pra ele, com um braço de distância e tirei os sapatos de salto. Diminui uns bons centímetros e deixei de estar mais alta que ele.
- Bem melhor assim. - disse ele com um meio sorriso.
Abaixei para colocar os sapatos de lado e sorri de volta ao levantar.
- Por que você usa saltos tão altos?
- Eu gosto... Sei lá, acho que sempre fui frustrada por não ter 1,70m e compenso com salto.
- Mas você não é baixinha... - retrucou ele.
- Eu sei, mas talvez eu goste da sensação de ver todo mundo de cima.
Ele me olhou daquele jeito desconfiado e continuamos batendo papo por um tempo.
O frio apertou e mesmo com jaqueta comecei a tremer.
- Tá com frio? Chega aqui... - Disse ele abrindo a própria jaqueta, que tinha o dobro do tamanho dele diga-se de passagem, me convidando para um abraço.
Cheguei mais perto e me aconcheguei próximo ao peito dele, relaxando e deixando o frio escapar lentamente. Era uma sensação boa. Muito boa, pra falar a verdade.
Há tempos não sentia uma tranquilidade e segurança daquele jeito, mesmo que momentânea. Eu sabia que podia bem ser tudo ilusão criada pela minha mente, mas era gostoso sentir aquela paz, mesmo que por alguns instantes.
Virei a cabeça para olhar pra ele na intenção de falar alguma coisa, e então notei o quão próximos nossos rostos estavam. Perdi o fôlego e a fala no mesmo instante, não lembro mais o que queria dizer. Qualquer pensamento coerente evaporou do meu cérebro e me dei conta naquele instante de como meu coração estava batendo rápido.
Soltei o ar lentamente pra em seguida tentar puxá-lo novamente. Era impressão minha ou o oxigênio estava acabando ao meu redor?
Minha respiração se tornou ainda mais curta, e a consciência da proximidade não estava ajudando em nada. Encarei aqueles olhos que eram enigmáticos até na cor, olhei bem no fundo deles, por trás das nuances de verde e mel tentando descobrir se ele estaria sentindo naquele momento toda a confusão que eu estava sentindo. Até que nossos lábios se encontraram.
Foi suave.
Foi lento.
Foi cauteloso
Foi doce.
Foi aconchego.
Foi renovador como uma chuva de verão.
Foi melhor do que eu jamais seria capaz de imaginar.

E eu estava com medo.

Na verdade eu estava apavorada! E se tudo fosse mais um erro? E se tudo não passasse de um momento?
Me afastei apenas um pouco, olhei novamente nos olhos dele e sabia que ele estaria vendo nos meus todo o terror que eu estava sentindo.
- Tô com medo. - disse apenas
- Eu também... - e me beijou mais uma vez.
Não sei quanto durou... Creio que foram apenas segundos, mas pra mim pareceu muito tempo. Pois não era apenas um beijo. Significava muito mais pra mim. Era mais um campo minado do qual eu poderia sair em pedaços mais uma vez. E eu não suportaria ser despedaçada novamente.
Ficamos abraçados por mais um tempo, sem dizer nenhuma palavra. Minha cabeça repousando no seu ombro enquanto eu tentava colocar os pensamentos em ordem, enquanto eu tentava entender o que tinha acabado de acontecer.
- É melhor eu entrar, tá tarde... E você tem que ir pra casa também... - eu disse sem soltá-lo ainda assim.
- Verdade. - Disse enquanto me afastava delicadamente. - Tchau - disse após me dar um selinho.
Me virei para entrar e abri e fechei o portão em velocidade recorde. Já do lado de dentro fiz uma rápida oração enquanto atravessava o quintal: "Deus, por favor, que seja ele... Porque se não for, eu não quero mais ninguém... Eu não suportaria mais um baque".

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1 comentários

  1. Eeeeeeeeeeeeee!
    Adorei essa parte, Lai! Foi tão linda <3
    Aguardando os próximos capítulos.

    Beijos
    Aline
    Memórias Literárias

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